Incidentes insignificantes provocam pensamentos nunca pensados. Eu me preparava para ultrapassar o carro que ia vagarosamente à minha frente quando o seu motorista virou o rosto para o lado esquerdo e cuspiu na estrada, um ato ecologicamente correto. Mas o seu ato banal provocou o meu pensamento. Por que os homens cospem? É preciso reconhecer que cuspir não é um ato natural. Gatos, cachorros, macacos e pássaros não cospem. Todo mundo sabe disso. Na roça, brincando com enigmas, perguntava-se às crianças: “Por que é que o boi baba?” A resposta certa era: “Porque ele não sabe cuspir”. Animais não sabem cuspir. O que prova que o ato de cuspir não está inscrito na sua programação biológica. Parece que, entre os animais, há uma exceção: contaram-me que os lhamas, quando não gostam de uma pessoa, atacam-nas com cusparadas monumentais. Deixada de lado essa exceção animal, é forçoso constatar que o ato de cuspir é exclusivamente humano e sua técnica tem de ser ensinada de geração a geração como um valor cultural. Não se nasce sabendo cuspir. É preciso que alguém ensine e que alguém aprenda. Faz parte da educação.
Mas logo me repreendi por estar perdendo o meu tempo com pensamentos tão bobos. Esqueci-me do cuspe como tema de pensamento. Aí, acidentalmente, lendo um texto de Manoel de Barros, encontrei essa afirmação: “Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância, servem para a poesia...” Espantei-me. Então o grande poeta de influência internacional usa o cuspe como unidade de medida do valor da poesia? Percebi: o cuspe tem dignidade poética!
Voltei a pensar sobre o cuspe, agora sem sentir culpa. Lembrei-me da dignidade teológica do cuspe. Relatam os evangelhos que Jesus, para curar um cego, cuspiu no chão, fez um barrinho de cuspe e terra, esfregou nos olhos do cego, ordenou que ele fosse se lavar num tanque sagrado, e o cego voltou a ver! Um conhecido, estudioso de seitas curiosas, disse-me haver uma “Igreja do Cuspe de Cristo”, o que é perfeitamente compreensível. Pois não há igrejas do “sangue de Cristo”? No Filho de Deus sangue e cuspe têm o mesmo poder salvífico.
Meu filho, retornando de uma viagem a uma das nossas capitais de estado, comentou o seu espanto ante o hábito generalizado de cuspir. Todo mundo cuspe. Não havia na sua observação nenhum julgamento negativo de valor, como se o ato de cuspir fosse falta de educação. Ele estava simplesmente intrigado... Há muitos anos, voltando da Europa para o Brasil, o avião fazia escala em Dakar, onde tive de esperar várias horas. Assentei-me num hall do aeroporto, onde estavam várias senhoras locais em seus trajes esplendidamente coloridos e turbantes na cabeça. Conversavam animadamente. Mas o que me surpreendeu foi o fato de que elas, a intervalos regulares, cuspiam de forma certeira num vaso que se encontrava no centro do espaço. Não se tratava daqueles cuspes raquítico, dependurados, que caem pela força da gravidade. Parecia-me antes um jogo de basquete em que o cuspe, fazendo as vezes da bola, era impulsionado vigorosamente por ar comprido.
Houve tempo em que era normal que houvesse nas salas de visita das casas e nos lugares públicos, especialmente barbearias, escarradeiras. Suspeito que em séculos passados a prática do cuspe era algo culturalmente cultivado na Europa. Cuspir era elegante. Semelhante ao uso do rapé que era guardado em pequenas caixas de prata, dotadas de um pequeno ralador para que o fumo em rolo fosse ralado em pó, na hora. Eis aí um hábito em perigo de extinção! São pouquíssimos os que conhecem os seus prazeres! Um espirro é um orgasmo nasal. Ele segue o mesmo caminho dos prazeres sexuais. A princípio, uma pequena cócega. Aí a cócega vai crescendo, aumenta, até chegar a um momento insuportável quando acontece a descarga e vem o repouso inicial. A prova de que o cuspe era coisa elegante na Europa, encontrei-a na casa de uma senhora que, com orgulho, exibia sua escarradeira “Limoges”, importada da Europa. “Limoges” ( não sei se é assim que se escreve), se é que você não sabe, era uma famosa marca de porcelana. Na casa daquela senhora a escarradeira sobre a mesa tinha uma função meramente decorativa e, se não me engano, foi vendida a um antiquário por bom preço. Tinha o formato de um pote do tamanho de um penico grande, azul brilhante, com três caras de leão com boca aberta, dos lados. Se tais peças caras eram produzidas era porque havia mercado consumidor. O que prova o meu ponto.
Tolerância é uma palavra feia. Porque ela implica um desgosto fundamental, um nojo, que se aceita por educação. Tolero... Melhor que tolerar um cuspidor ou escarrador é compreendê-lo. Eles têm suas razões. Tal como acontece com as eructações sonoras a que se entregam os indianos e árabes após as refeição. Digno “eructação” e não “arroto” que, a se acreditar nos dicionários, são sinônimos, porque o som da palavra “arroto” é um deboche, enquanto “eructação” é nobre. “Eu eructo’ é totalmente diferente de “eu arroto”. Quem come e não eructa comeu e não gostou. A eructação discreta, contida pelo guardanapo e seguida de um pedido de desculpas é, realmente, afrontosa. Certas boas maneiras ocidentais, em outras culturas, são grosserias imperdoáveis! Assim, aplicando-se o método psicanalítico ao escarro e ao cuspe, é preciso desvendar o que estão dizendo. Notei que os jogadores de beisebol cospem para o lado como parte das suas encenações. E ontem, vendo a despedida do Romário na televisão, vi que um jogador também cuspiu para o lado, antes de bater um escanteio. Imaginei, portanto, que o ato de cuspir ou escarrar tem uma função de exibição fálica. Quem cospe está dizendo: “Sou macho...” Mas, como explicar os cuspes das mulheres no aeroporto em Dakar? É muito simples. São revelações dos seus desejos. Porque toda escarradeira é feminina, um orifício e um espaço vazio. Enquanto o cuspe é masculino. Não é preciso chamar a atenção do leitor para a semelhança que existe entre a cusparada e a ejaculação.
Fisiologicamente classifiquei os cuspes em guturais, linguais, palatais, labiais, sendo que os labiais se sub-dividem em frontais, laterais esquerdos, laterais direitos... Mas esse é assunto para uma outra crônica que não escreverei...
Rubem Alves
p.s. texto em homenagem a Mariana "gordenha"